Cerca de 32% dos brasileiros sofrem com doenças crônicas e têm dificuldades em fazer tratamentos contínuos. Diante dessa realidade dois estudantes de administração criaram a Dr. Cuco, uma startup de saúde, para facilitar as rotinas desses pacientes.

“Cuco… Cuco… Cuco…”. O celular alerta às 9h da manhã. Liliane Jucá, 44, funcionária pública, pega o aparelho e desliga o alarme. Seleciona o comprimido para pressão alta, enche um copo com água e ingere a pílula.  Há 15 anos ela recebeu o diagnóstico, quando ainda era necessário guardar guias e decorar receitas. Liliane chegou a enfrentar um infarto em janeiro de 2016, pois não conseguia cumprir a rígida rotina de tomar dois remédios distintos, duas vezes ao dia, em intervalos muito precisos.

As dificuldades não são só de Liliane, mas de milhares de brasileiros. Ela só conseguiu o hábito de tomar os medicamentos corretamente, quando passou a usar um aplicativo. Dr. Cuco tem o objetivo de lembrá-la de tomar o remédio no horário correto, evitando ao máximo interrupções ou complicações no tratamento da doença. Além dessa função, também traz o histórico do usuário, mensagens e dicas para estimular a continuidade no processo.

O aplicativo estadunidense Health Prize, que presta o mesmo tipo de serviço, realizou uma pesquisa durante 2 anos, com 8 mil pacientes, e constatou que houve redução de 99% na interrupção do tratamento, entre os dias que o medicamento acaba e não ocorre a compra de um novo. Além disso, 79% dos avaliados dizem que a ajuda do aplicativo foi fundamental para seguir o tratamento como deveria.

O aplicativo instrui o usuário de maneira “gamificada”, ou seja, utiliza a metodologia dos jogos para que ele consiga informar-se e compreender de maneira mais eficaz as informações ali colocadas.  Dentro disso, um recurso que está sendo estudado para implementação em breve, trará ao paciente que cumprir o objetivo de medicar-se de maneira correta, uma série de benefícios dos planos de saúde ou das indústrias farmacêuticas, como descontos em academias, nutrição ou medicamentos, por exemplo.

Veja o passo a passo para usar o app

Passo 1 -Passo 2 -Passo 3 -Passo 4 -Passo 5 –Passo 6 -Passo 7 -Passo 8 -Passo 9 -

 

A tecnologia aliada à saúde transforma o tratamento das doenças, tanto dentro, como fora dos hospitais, melhorando e prolongando a vida dos pacientes e auxiliando médicos. Aplicativos como o Dr. Cuco permitem a independência do paciente, tornando-os engajados com o tratamento e responsáveis pelo seu estado de saúde.

A persistência no tratamento é muito importante, já que diversos fatores podem ocasionar desistência e retroceder o quadro médico. Para que isso não aconteça, o app tem a mecanismo “cuidadores” que integra as pessoas do círculo social do enfermo, disponibilizando informações sobre sua assiduidade. “Acho importante a opção “Cuidadores”, principalmente quando se fala em Home Care – eu já tive uma pessoa acamada em casa e era bem difícil lidar com os horários dos remédios e a administração deles também. Naquela época ainda não existia o Cuco”, comenta Monika Gargantini, 52, responsável pelo Divertidosos, site parceiro da Cuco, que tem o objetivo de trazer interação social na terceira idade. “Acredito que a inclusão digital faz toda a diferença na vida do idoso. Se ele conseguir baixar o app e usar – claro que com a ajuda de um jovem – o tratamento dele será mais eficiente e seu bem-estar e autoestima estarão favorecidos pela troca de conhecimento intergeracional, pois ele tem que exercitar seu cérebro”, acrescenta Monika.

Além disso, os custos são diminuídos e o público tem maior aceitação, já que hoje as pessoas estão a maior parte do tempo com seus smartphones e prezando pela praticidade. “Eu comprei um celular para minha mãe só para fazer o acompanhamento, posso trabalhar sossegada. Como ela só tem que desligar o alarme para tomar o remédio, não tive o trabalho de ensiná-la a mexer no celular”, comenta Marcia Xavier, 50, costureira que monitora Maria Marta de 76 anos, aposentada, diagnosticada com diabetes e pressão alta e toma cerca de sete medicamentos por dia.

Para comprovar sua eficiência, no Google Play, onde o aplicativo é disponibilizado gratuitamente, é possível ver que possuí boa qualificação e a resposta é muito rápida por parte da empresa, que se preocupa muito em solucionar os problemas propostos pelos usuários e sempre aprimorar suas ferramentas.

Também pensando na combinação tecnologia-saúde, surgiu a parceria com o Instituto Lado a Lado Pela Vida, que desenvolve projetos, apoia e elabora ações voltadas à humanização da saúde. A parceria consiste em troca de informações e conteúdos de saúde voltados aos pacientes crônicos e disponibilizados no site do instituto, assim como utilizados no desenvolvimento do aplicativo.


Coparticipação e mobilidade para as consultas

As mudanças tecnológicas, como aplicativos e plataformas, auxiliam cada vez mais na agilidade do nosso cotidiano. Não só em procedimentos comuns, mas também na área da saúde. Nesse âmbito de facilitar e acelerar processos, que nasceu a parceria entre a empresa CUCO e os hospitais, como o Hospital do Coração (HCOR) e o Hospital Santa Helena, que busca através da plataforma online CucoHealth acompanhar, monitorar e auxiliar o tratamento dos pacientes em todas as regiões do Brasil.

Para avaliar de forma mais ampla, além do app gratuito ao paciente, existe também a plataforma paga para utilização dos membros da área da saúde. Uma dessas funções oferece informações para que os médicos possam acompanhar o diagnóstico, instruir sobre efeitos colaterais e, ocasionalmente, esclarecer dúvidas que surjam. Outro recurso é a possibilidade de inserir no aplicativo os familiares como um cuidador, esses com o dever de motivação para que não ocorra descontinuidades desnecessárias. “Temos que pensar que, na idade avançada, as doenças são, geralmente, acompanhadas de esquecimentos, portanto um aplicativo de acompanhamento pode ser até uma situação de vida ou morte, principalmente se estiver administrando medicamento de pressão”, afirma José Glavam, 47, analista de tecnologia da informação, que buscou o aplicativo para sua mãe, de 73 anos de idade, em um pós-operatório.

A ferramenta ensina ao paciente o autocuidado, ou seja, além de medicar-se, ele pode também entender o seu tratamento. Mostra os benefícios e riscos, incentivando-o a seguir as prescrições à risca e não suspender os procedimentos antes do término. As causas de interrupção no tratamento variam entre sintomas resultantes, custo benefício, logística, burocracia para marcar e agendar consultas, falta de instrução sobre o tratamento, entre outros. Portanto, é comum que haja desistência por falta de estímulo, ou algum erro que regresse o paciente ao estado inicial, fazendo-o percorrer todo o caminho novamente.

O Hospital do Coração é um instituto especializado em cardiologia, que recebe pacientes de todo o país, dessa maneira a aliança entre tecnologia e saúde acrescenta mobilidade à consulta presencial. “O programa de Congênitos (programa que trata da Cardiopatia Congênita, isto é, anormalidade na função do coração que surge desde o nascimento) que já existe no hospital, consegue atender quase todos os estados do nordeste”, diz Cora Lucia Pereira Hors, 56, diretora de marketing.  “A assistência é oferecida às mães com bebês que têm problemas cardíacos. Eles vêm até aqui, são operados, mas o acompanhamento depois fica limitado, porque elas voltam ao seu local de origem, e às vezes elas não recebem o melhor acompanhamento possível”. Com o aplicativo, a consulta tem a capacidade de se estender até a residência do paciente, possibilitando chegar em casa e tirar dúvidas sem precisar deslocar-se novamente, economizando tempo, dinheiro e desgaste psicológico, já que, muitas vezes, pessoas com doenças crônicas possuem algumas limitações.

Ouça o áudio da entrevista com Cora Lúcia, diretora de marketing do HCor, e Andreia Di Vanna, assistente de marketing do HCor

Nem sempre é disposto tempo suficiente de consulta dentro dos hospitais e consultórios, por isso é preciso a colaboração dos familiares e o amparo das novas tecnologias para auxiliar essa carência. Hoje, dos  brasileiros com doenças crônicas, 14,6% têm 50 anos ou mais. Investir no aplicativo tem como objetivo aumentar a qualidade de vida dos usuários que, seguindo as orientações, conseguem fazê-lo de forma mais precisa e autônoma. Além disso, é minimizado os custos, já que evita internações ou cirurgias, fazendo com que mais pessoas possam ser atendidas com os mesmos recursos financeiros.

Ainda assim, o aplicativo não substitui a consulta presencial ou menospreza a função do médico. “A tecnologia pode apoiar programas que já estão estabelecidos”, complementa Cora. O diagnóstico principal ou identificação do medicamento correto não pode ser substituído. O aplicativo propõe recursos que façam a manutenção, apoio e acompanhamento.

“É interessante a mediação: a startup traz ferramentas inovadoras com design e tudo mais, e o hospital leva as informações do dia a dia ao médico”, comenta a diretora de marketing do Hospital do Coração. Frequentemente, o hospital não tem tempo de investir em aperfeiçoamento eletrônico, por isso é importante o interesse de startups, universidades e pesquisadores para o desenvolvimento tecnológico agregado ao conhecimento do hospital sobre todos os imprevistos e particularidades da rotina hospitalar. “A gente está numa parceria ajudando a desenvolver o aplicativo para cuidar da saúde e o HCOR quer oferecer o que há de melhor para os pacientes. Nosso principal objetivo é a assistência. Então, o HCOR tem se esmerado em fortalecer a participação dele dentro do ecossistema de inovação”, conclui Cora.


O nascimento de uma ideia

Dois estudantes de administração. Lívia Cunha, 25, e Gustavo Comitre, 23, precisavam de um tema para seu TCC – Trabalho de conclusão de curso. Lívia passava muito tempo em hospitais, acompanhando o trabalho do pai, que é médico. Com ele e percebeu que uma das maiores dificuldades dos pacientes era seguir corretamente o tratamento enquanto estavam longe do consultório. Gustavo, portador de doença crônica, esquecia de tomar os medicamentos no horário correto, impactando no resultado de seu tratamento. Juntos estudaram as duas diretrizes do problema e elaboraram não só um trabalho de TCC, mas o que seria a startup Cuco.

Ouça o áudio da entrevista com Lívia Cunha, uma das criadoras da Dr.Cuco

A empresa oferece ferramentas que auxiliam o tratamento de pacientes com alguma doença crônica, ou que necessitam utilizar algum medicamento por um período de tempo. O alcance da instituição vai além dos usuários do aplicativo gratuito, pois também desenvolve plataformas pagas para auxílio de médicos, hospitais, planos de saúde, secretarias de saúde e indústrias farmacêuticas, buscando agregar todos os envolvidos no percurso entre diagnóstico inicial até a finalização do tratamento.

Ao longo do processo de criação muitas ideias foram descartadas. “No começo a gente queria resolver integralmente o problema de um paciente, como toda startup. Seriamos um agendamento online, um gestor de filas, um monte de coisa. Por fim, vimos que não fazia sentido. Precisávamos focar: a maior dor para o nosso cliente é o paciente não seguir o tratamento médico, então concentramos nessa parte e aprendemos o caminho certo na dor”, comenta Livia. O primeiro aplicativo que foi a público era muito falho, não tinha as funcionalidades necessárias para se manter, e mesmo com 15 mil usuários os criadores optaram por retirá-lo do ar e começar tudo novamente.

Gustavo Comitre ,23, e Lívia Cunha, 25, criadores do aplicativo Dr. Cuco. Foto: Arquivo pessoal

Como só a ideia não seria o suficiente, os dois sócios inscreveram-se em um processo seletivo na IBM Smart Camp, empresa que seleciona startups potenciais no mundo, e foi selecionada para utilizar a inteligência artificial Watson, uma ferramenta ainda em desenvolvimento que simula uma enfermeira digital e responde possíveis dúvidas pelo aplicativo através de um chat.

Além de pesquisas em recursos tecnológicos e com o intuito de entender seu mercado de atuação, a Cuco fechou uma parceria com o Hospital do Coração, instituto especializado em doenças cardiológicas, para que juntos realizem pesquisas com a finalidade de avaliar em números os benefícios das tecnologias, como aplicativos, aos tratamentos médicos convencionais.

Além das ferramentas que a empresa desenvolve: aplicativo gratuito, plataforma para hospitais e indústrias farmacêuticas, também procura estabelecer vínculo com secretarias de saúde. Venceu o concurso Brasil Lab e passou por um processo de educação, para conhecer a forma de trabalho com o Governo, já que o foco sempre foi o setor privado. O Brasil Lab media esse contato, a Cuco não cobra o produto, somente custos de operação como descolamento ou instalação. Ou seja, é disponibilizado ferramentas para que todos daquela região possam usar gratuitamente o mesmo aplicativo que é vendido para convênios. Sendo assim, o setor público de saúde passa a ter uma canal digital para que seus usuários possam ser instruídos em questões da saúde.

A proposta da startup sempre foi desenvolver um método de auxílio na efetividade do tratamento.  “O nosso propósito de verdade é cuidar da vida das pessoas. Sabemos que o cuidado com a saúde é muito deixado de lado e diante dessa grande dificuldade, melhorar a qualidade de vida desses usuários, os fazendo seguir o tratamento da maneira correta, impacta diretamente no número de mortalidade no país. O maior número de mortes no país é causado por doenças crônicas”, ressalta Lívia.

Equipe de repórteres: Jesse Rodrigues; Julyanne Jucá; Mariana Rosseti; Victor Alberto e Yuri Fonseca